Fio de sanidade...

 

As pessoas… nós. Verdade, eu também sou uma pessoa. Às vezes esqueço-me disso e começo a olhar como se eu estivesse de fora, observando de longe as criaturas que somos, como agimos.
Rio dos nossos devaneios tolos, dos sonhos estúpidos de dominarmos uns aos outros, dos presságios malfeitos, dos desígnios incoerentes. Eu rio da nossa insensatez, da nossa subjugação, do nosso medo frequente de sermos… esquecidos!
Quem deseja ser esquecido? Todos parecem se comportar como máquinas programadas para a própria morte. Não quero dizer que estejamos bem conscientes disso, mas provavelmente estamos acordados; em algum nível, estamos, sim, acordados.
O quanto realmente nos importamos uns com os outros? O quanto realmente queremos um bem coletivo? Ou estamos lutando para parecer, sempre parecer, os bonzinhos, os seres altamente evoluídos de uma natureza esdrúxula que escolheu os seus preferidos, queridos humanos, para dominarem a porra toda.

Não espere de mim palavras doces, caro leitor. Se você ainda permanece aqui é porque tem uma aguçada curiosidade e quer entender onde estas palavras pretendem chegar!
Sinceramente, em canto algum! Elas querem apenas existir livres das amarras e necessidades de dourar pílula. Elas querem ser o que são, sem uma explicação exata, sem a pretensão de agradar aos olhos, aos ouvidos… Elas querem apenas viver um pouco em paz, algo tão raro neste mundo.

Paz? Quem pode desejar paz? Dizem por aí que alguns seres ainda mais espiritualizados, bondosos e pacientes a possuem. Eu fico me perguntando em qual mundo fantasioso esses seres vivem. E me questiono sobre a veracidade dessa paz forjada e forçada, enquanto a vida se acaba em guerras, doenças, dominação.

Se eu sou pessimista? Claro que eu sou pessimista. E sou otimista quando preciso manter um fio da minha própria sanidade. E tento ser realista, mas esbarro sempre numa provocação interna: “O que mesmo é a realidade?”. Já ouvi dizer que há uma realidade objetiva, que seria então a verdadeira realidade.

Sabe a realidade da qual ouvimos falar desde sempre e que, provavelmente, morreremos escutando? Aquela, esta, essa realidade de fome, guerras, disputas políticas, alguns pontos de solidariedade, tantas vezes enveredadas por religiões e impulsionadas pelo lugar no céu num futuro inexistente… Enfim, acho que tenho muitas características de uma pessoa pessimista, mas é que minha realidade é permeada por cenas que eu poderia tranquilamente me eximir de ver ou de ouvir, mas não dá!

Eu nem assisto televisão, nem procuro notícias do dia na internet. Eu sou uma bitolada, alheia à realidade objetiva da minha cidade, do meu país, do meu mundo… No máximo, procuro notícias acerca do universo, novas descobertas, novos cometas que podem nos atingir. Às vezes fico na torcida para que nos atinjam, mas sou forçada a acreditar que há uma proteção divina sobre nós. Não é possível! Deve mesmo haver quem proteja este insignificante planeta azul em meio a este mar de caos que ocorre cotidianamente no universo. Mas quem defenderia a continuidade deste caos que acontece aqui dentro? Quem quer assistir a fenômenos tão degradantes comendo sua pipoquinha e bebendo sua coca? Um ser tão doente quanto nós? Alguém com um caráter indubitavelmente sádico, com algum transtorno de personalidade que não aguentou viver sozinho neste cosmos infinito e decidiu criar miniaturas de criaturas que representassem sua própria decrepitude?

É complexo. Mas complexo ainda é dizer que eu sou o tipo de pessoa insana que não acredita em Deus e acredita. Você pode se decepcionar neste momento. Eu não tenho como entender este fenômeno abrangente da minha própria dicotomia… ainda! Mas este tratado busca uma possível compreensão de tal acontecimento dentro de um mundo tão polarizado.

Eu não consigo ser tão polar, extrema, doente a ponto de desconsiderar que o outro lado até pode ter razão. Não pode? Por que a minha verdade é melhor ou mais verdadeira do que a verdade do outro? O outro é menos capaz do que eu? Não consigo desconsiderar as vivências das pessoas e as minhas próprias. Tem gente que possui muito mais razão do que eu para não crer em nada além da realidade objetiva e sem sentido que vivemos. Tem gente que possui muito mais razão do que eu para crer em algo além da realidade objetiva e sem sentido que parecemos viver. Há explicações e argumentos para tudo e para todos os lados, embora algumas explicações e argumentos se baseiem apenas na fé do próprio indivíduo. Quem poderá dizer que ele está total ou parcialmente equivocado?

Tem uma outra possibilidade. A gente enxerga a realidade objetiva de acordo com nossos pontos de encruzilhada. O que é isso agora? É apenas a forma como eu gosto de chamar grandes acontecimentos da vida de uma pessoa, de uma comunidade. Se isso ocorre de fato, podemos viver no mesmo mundo e enxergá-lo de maneiras diversas, como ratos numa caixa que vão em busca da comida mais próxima do seu olfato. Todos juntos, mas, ao mesmo tempo, enxergando placas e acontecimentos diferentes. As realidades se conectam no encontro, mas a partir do ponto de vista pessoal. E isso é muito, muito complexo de dissecar. Cada um pode entender, ver e viver a realidade de acordo com muitos vetores. Não há secura e objetividade neste acordo. Há apenas inúmeras possibilidades, o que torna este pensamento um verdadeiro transtorno para quem o tem: o pensamento de que, por mais que nos esforcemos, nunca conseguiremos entender o lugar e o ponto de vista do outro.

Talvez Deus não seja aquele sujeito sentado assistindo à própria derrocada da sua aparentemente mais evoluída e amada criação. Talvez ele seja a mente por trás de cada mente. Talvez ele mesmo tenha sido o enfado de viver num universo irresoluto e perfeito e eterno e decidiu vivenciar as mais insanas e as mais belas aventuras por meio de nós. Cada ser poderia ser considerado, então, um olho, um ouvido, um braço, uma perna, um olfato de Deus. Provavelmente uma microcélula ou apenas a mitocôndria ou o ribossomo ou qualquer molécula que forme a célula, ou o átomo, ou sejamos os prótons ou os elétrons, ou mesmo os quarks ou glúons… Talvez partículas ainda menores, não importa. O que importa é que podemos ter alguma importância sublime dentro de todo este corpo. Isso não faz de nós o próprio Deus, embora isso nos torne bem importantes por compor este ser deífico.

Meus pensamentos se voltam para aquela criança mirrada que me pedia, ansiosa, por um copo d’água. O que eu poderia fazer senão dar-lhe o presente almejado? Depois de satisfazê-la, ela voltaria para casa, se é que ela tinha uma casa… Talvez ela voltasse para o barraco improvisado de onde viera, de onde nascera. A realidade daquele ser me parecia dura. E, como ele, tantas e tantos outros. Em tantos níveis, com tantas dores… E dizem para mim: “Deus te abençoe e te dê em dobro!”. Sinto-me consternada e constrangida. Quem poderia ser este Deus cruel que obriga estes seres a servi-lo em troca da imundície e da pobreza?

Depois penso como sou ridícula por não crer em Deus, apesar dos meus pequenos privilégios de vida… Ter uma cama para dormir, ter água filtrada, ter comidas que desejo comer, ter família que me ama, ter possibilidade de trabalhar, ter tempo para refletir sobre assuntos sérios e banalizados. E, ainda assim, não crer em Deus! Que pessoa horrível sempre me considerei por isso.

Mas nunca pude aderir ao ateísmo, pois minha fé na minha não fé sempre fora escassa. Se Deus pudesse ser tudo o que existe, incluindo os soberbos humanos que se acham superiores aos outros reinos que os sustentam. Se nós mesmos fôssemos a expressão deste Deus, talvez ele só queira testar, compreender, sair da monotonia que é ser eterno, infinito, atemporal. Aqui e pelo universo afora há motivos ininterruptos para viver intensamente. Não há pausas. Há sempre alguém morrendo, alguém nascendo, alguém sofrendo, alguém transando, alguém se apaixonando, alguém achando que descobriu algo revolucionário, alguém tramando, alguém matando, alguém criando, alguém vivenciando…

Isso é tão surreal! Deus, com certeza, estaria em movimento constante. Com algum objetivo? Será? E se for apenas para sua própria diversão? Isso importa tanto? E se ele apegou-se a nós e nos elegeu como preferidos justamente por sempre estarmos perdidos na vida, por sempre encontrarmos respostas que nos desencontram, por sempre desejarmos sentido onde não existe nada, nada, nada! Talvez o criador tenha se apaixonado por sua criatura infame e agora esteja lutando para ajudá-la a enxergar que é uma só.

Uma só? O que você quer dizer com isso? Exatamente! Apenas o que eu disse. Se tudo pode ser uma composição do próprio Deus e nós somos manifestação dele, logo tudo é ele mesmo e nós somos o mesmo ser. Sendo assim, qual o objetivo excruciante de nos matarmos, de nos odiarmos, de inventarmos teorias e mais teorias conspiracionistas? Qual o sentido de nos acharmos melhor ou pior do que alguém por causa da cor, do sotaque, do país, da bandeira, da crença? Qual o objetivo de nos sentirmos tão desintegrados e separados de um todo que é tudo e que somos nós mesmos? Deus criou uma confusão, você deve estar imaginando. Eu concordo. E discordo. Você sabe, eu gosto de ficar em cima do muro. É um lugar privilegiado, você não acha? A gente enxerga de cima um lado e outro lado e percebe que os dois estão querendo se anular apenas para parecerem mais importantes. Os dois lados querem escarrar suas verdades inalteradas e esperam que o outro as aceite de bom grado, sem ressentimentos.

E se pudéssemos jantar juntos? Um grande jantar da humanidade… Um sonho utópico e disruptivo. Se pudéssemos ouvir o outro lado, calados, silenciosos e verdadeiramente atentos ao que têm para nos contar? E pudéssemos suspender a raiva e a pulsão de morte por alguns minutos e conseguíssemos enxergar sem o olhar preconceituoso do qual estamos todos emaranhados? Se pudéssemos ver e perceber que todos estão buscando viver a vida, desejando viver a vida? O corretor está dizendo que é pleonasmo. Dane-se, porque eu adoro pleonasmos!

É uma ilusão! Uma grande ilusão! Não este meu sonho desvairado, mas a vida. Você também pensa assim? A vida é um palco de grandes ilusões, porque a realidade sempre parece escapulir entre nossos dedos e nossa vã pretensão de compreendê-la e de subjugá-la. São véus densos e enviesados. Não temos muita escapatória a não ser criarmos sentidos e não sentidos para a vida. E tudo o que criamos não passa de ilusões, de termos e palavras que utilizamos para darmos continuidade à própria espécie. É um voto à não desistência.

E é nessa luta, nesse embate incessante desde tempos anosos até hoje, que encontramos o porquê de existirmos. Onde eu quero chegar? Dizer que não existimos sem o atrito, sem a percepção do contraponto, sem o complemento oposto que nos causa tamanha repulsa que, para nós, torna-se impossível não enxergarmos. Nós vivemos e sobrevivemos por causa do embate e do debate, da conversa e da não concordância com os aspectos alheios. O outro nos chama atenção por sua diferença, por sua indiferença, por sua presença que sempre causa-nos animosidade antes de qualquer outro sentimento.

Não há conforto no encontro. Não há disposição em abrir mão da própria verdade, do próprio lugar onde se senta e se assenta. Mas há curiosidade e também desejo de subjugar o outro à sua verdade, à nossa verdade. E é nesse encontro que descobrimos que a vida é ilusão… Para mim, essa é a explicação mais honesta e fácil de digerir, confesso.

Se colocarmos que nossas vivências mais supérfluas e nossas vivências mais profundas foram e são uma ilusão, nós podemos cortar o tempo, porque o tempo também seria uma ilusão. Isso acalma ou assusta? Mas é algo que muitos de nós não conseguem acessar… Ainda!



Prosseguimos irresolutos quanto às definições que pretendemos crer da vida. Alguns acreditam em deuses o suficiente para não crer em nenhum e não necessitar prestar contas a ninguém. Outros dizem-se monoteístas, embora aparentem servir a mais deuses do que apregoam.

Definir algo é cristalizar, marcar para sempre como irrevogável? Ou é apenas uma maneira lúcida de dizer o que é algo, mas sem a pretensão de fazer este algo eterno, imutável? Não sei… Estou certa de que nós circulamos em muitos patamares e estradas desconhecidos, tramamos nossa história pelo olhar enviesado e forçado que nos foi simplesmente passado pela nossa ancestralidade, por mais de nós.

Quem está certo? Nós ou eles? Ou os que virão? Quem age baseado na razão, quem age baseado na emoção ou quem age baseado na fé? E o que são estas palavras para além da teoria? O que é razão? O que é emoção? O que é fé?

Se formos mais pragmáticos e logo corrermos atrás de dicionários, muitas definições e estudos referentes a estes três termos nos serão apresentadas. No entanto, este tratado pretende o olhar fechado e mais intuitivo possível destas palavras que saltam em nossas mentes agora.
Pois bem. Razão. O que é razão? Um intelecto apurado configura razão? Trazer à tona o ser mais real, mais palpável, mais possível de ser tangível ao nosso raciocínio cartesiano, matemático. Algo possível de ser calculado, engendrado ou prospectado, mesmo que de maneira sutil. A razão refere-se ao nosso cérebro e, supostamente, à nossa mente. O que seria a mente? O fio tênue que nos liga ao suprassensível, ao além do visível. A gente vê o cérebro, mas a mente só pode ser tocada pelas criações que realizamos. Eu vejo a mente de alguém em sua escrita, em seus desenhos, em suas construções, ou seja, no seu labor.

O pensar está intrinsecamente ligado e relacionado à mente. Mas o pensar não é a mente. Esta guarda o pensamento, que é algo mais tênue e fugidio do que sua própria morada. O pensamento está na mente, porém a mente não está no pensamento. O pensamento, este sim, é intocável, inviolável. Este pertence apenas à pessoa que o possui. Sua mente não! Sua mente é exposta como um bloco por meio das ideias que ela dialoga e traz ao mundo, por meio das invenções. O pensamento fica guardado no esconderijo da mente humana. E talvez não humana… Quem sabe…

A razão toca no pensamento. O pensamento construiu a própria razão. E quem construiu a emoção? Os românticos já direcionariam seu olhar aflito para outro órgão, o coração. Mas, se há um órgão que seja instrumento da emoção no ser humano, bem, este órgão é o fígado. Ele metaboliza tudo o que ingerimos, seja alimento, seja informação. Tudo o que entra por meio dos sentidos, aqueles que conhecemos e aqueles que teimamos em ignorar, tudo é metabolizado pelo fígado e transformado em emoções, interpretado pelo cérebro, “dono” da razão.

As emoções são perceptíveis, nosso corpo reage a elas e nossa mente também. Os pensamentos podem ficar ocultos e, assim, fingimos o sentimento, se desejarmos. Sentimento é de uma profundidade que quase toca na fé. E, por falar em fé… Qual órgão poderia guardar a fé senão o coração? Ele fornece toda a sua força e desempenho ininterruptos para fazer todo o corpo continuar funcionando. Ele traz a essência arquetípica do que é a própria fé: acreditar que tudo está em ordem e, mais ainda, trabalhar para manter esta ordem.

Tudo isso não passa de insanidades, conjecturas e observações de uma vivência pessoal e, portanto, enviesada. Eu adoro esta palavra. A razão não briga com a emoção e muito menos com a fé. Se pudermos compreendê-las, talvez concluamos que todas se complementam e são imprescindíveis para cosmologizar o caos aparente.
Não sei o quanto nós nos escondemos em meio às dores físicas, psíquicas e emocionais. O que queremos falar de fato quando estamos doentes? De quem queremos atenção? Do pai, da mãe, da esposa, do filho, do companheiro? A quem interessa nossa doença? Esse caos interno abalou-me neste instante em que uma pandemia está há mais de um ano instalada no mundo e instaurada no Brasil. Estou perplexa com o meu nível de adoecimento, de acomodação, de tristeza, de desânimo. Parece-me que eu queria apenas um abraço caloroso e não obrigatório. Parece-me que eu queria voar como as borboletas, mesmo arcando com a vida curta que teria, caso eu pudesse ser uma borboleta. Não sei, mas já pensei mesmo em ser uma formiga, por mais que as chances de ser esmagada a qualquer momento fossem bem preponderantes. Talvez até mesmo uma lesma, uma minhoca, qualquer coisa que não esteja no intenso sofrimento que a maior parte da vida terrena está.

Não são apenas os humanos, quero dizer, nós humanos. Não! São muitos animais, plantas, solos, ares, rios, mares, paisagens explorados e negociados a cada instante, a cada piscar de olhos. A vida de nada e de ninguém tem valido grandes fortunas. Apenas para aqueles que detêm grandes fortunas. Eu não sei se os chamaria de ricos, afortunados, sortudos, merecedores, como dizem os meus conterrâneos e como querem me fazer acreditar os coaches, que atualmente saíram dos gramados e das quadras desportivas e vieram dar lições de boa conduta e fórmulas para aquisição de riquezas aos seres comuns e vulgares, nós humanos normais e não ricos, mas que desejam profundamente enriquecer.

Provavelmente eu não entendi direito a real proposta dos coaches nem dos treinamentos de alta performance. Deve ser meu estilo interiorano, devem ser meus dentes afastados, deve ser minha vida pacata e cheia de ansiedade boba. Às vezes, pergunto-me se serei enterrada no cemitério em que meus pais estão ou em outro. Eu acho mesmo que não fará diferença alguma, porque não acredito que nossos esqueletos possam conversar. Porém isso me faz pensar na morte e na doença e na questão levantada há pouco: a que estas dores e estas doenças servem? E a quem? Creio que servem a mim, no caso de eu ser a pessoa doente ou dolorosa ou dolorida. Eu tenho tanto medo de morrer e de deixar tudo o que ainda penso em fazer para trás. Eu tenho medo de deixar pessoas chorando por mim e, provavelmente, tenho medo de descobrir que a maioria não estará nem aí. Alguns

chorarão por uns dias, outros nem farão questão de chorar e alguns até comemorarão. Não sei dizer o que temo mais na morte. As dores, a doença, a atenção que eu desejo chamar para mim.

Sinto que estamos num buraco profundo e insano, sem aviso, sem vontade, sem necessidade de ser. Eu desejo a profundidade do não falar e se entender. Eu desejo a vaidade do não porquê. Eu desejo demais e, no exato momento em que vou dar o passo, tudo desmorona. Sinto que é um ciclo vicioso. Eu já estive para morrer algumas vezes na vida. Eu não entendo o que isso quer dizer, de verdade. Mas é sempre do mesmo jeito, a mesma forma, o mesmo tom. Eu não aceito a partida, a despedida, o choro, a viagem.


Falando em viagem, sempre tive medo delas, embora fosse exatamente o que eu desejaria fazer pela vida inteira: viver viajando de cidade em cidade, de país em país, pregando alguma palavra, qualquer palavra, apenas conhecendo gente, que é a criatura que mais me fascina e me deixa extasiada. Eu sou mesmo apaixonada por gente. Gente é tão sem graça, tão sacana, tão complexa, tão simplória, tão previsível, tão amável. Eu entendo Deus fazer gente. Gente é intrigante e dá estudo para uma eternidade, porque, quando você acha que sabe tudo sobre gente, vem alguém e surpreende e faz algo novo e renasce e escapole da vida ou da morte de maneira magistral. Eu adoraria viver viajando e observando gente e escrevendo sobre essa gente. As gentes me comovem de uma maneira quase inexplicável. E é esse QUASE que me faz caminhar em direção às pessoas.

Eu quero abraçar pessoas, eu quero ouvir pessoas, eu estou farta da solidão de ser sem ninguém. Eu estou farta de não me preencher apenas de mim, da minha própria casa, dos meus próprios parentes. Eu quero o mundo, eu quero tudo e aqui não tenho medo de dizer. Não tenho medo de dizer aqui e, estando aqui, também perco o medo da morte. De repente, se eu morrer tão jovem, alguém encontrará o que escrevi em algum arquivo com nome estranho dentro do velho computador que ganhei de segunda mão do meu companheiro. Isso me deixa aliviada e aterrorizada. Eu não sei se me acostumarei rápido com outro computador, pois é inevitável que eu mude para outro. Mesmo que seja em outra dimensão.

Sim, eu acredito em outras dimensões. E creio que as tecnologias assemelham-se em algum ponto. Penso muito sobre a possibilidade de viver eternamente dentro de uma máquina e, depois de queimar o último neurônio funcionante, começo com a ideia fixa, quase um TOC, de que estamos vivendo dentro de um computador ou algo semelhante. Eu tenho pavor e tesão por esta ideia. Acho tão fantástica e genial quanto também a vejo como hilária e fantasiosa demais. Não sei, mas acredito que tenho grandes chances de estar certa nestas conjecturas sobre vivermos presos em uma máquina que talvez não tenha mesmo objetivos bondosos e belos como alguns de nós teimam em pensar. Talvez sejamos escravos mesmo, como em Matrix, talvez sejamos um experimento numa tentativa de melhoramento de seres, como em 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Talvez a gente seja como aquele robô “Isto”, de O Homem Bicentenário, e alguém esteja testando e aprimorando sua tecnologia em nós enquanto nós, bobinhos, pensamos descobrir o mundo. Que nada! O mundo já está todo descoberto. Você pensa sobre estas insanidades também?

Digo, são questões aparentemente banais, no entanto afligem-me sobremaneira e assustadoramente a cada dia. Eu gosto de pensar que alguém talvez esteja no controle desse caos todo que meus sentidos pueris captam dia após dia. Por outro lado, eu fico perturbada com a ideia de que alguém pode vigiar meus passos e, mais do que isso, meus pensamentos! É realmente aterrorizante. Antes era mais, pois eu pensava em matar muita gente e isso era pecado e, exatamente por ser pecado, meu pensamento pensava. Eu tinha TOC diagnosticado por mim. Não, eu não sou médica, nem psicóloga, nem mesmo pesquisei no Google. Apenas assisti a uma palestra quando ainda estava na faculdade e conheci este termo e seu significado. Uma ficha estrondosa caiu dentro de mim e eu libertei-me. Assim mesmo, sem terapia, sem remédio, sem culpa de não percorrer uma jornada extraordinária para a cura. Passei a adolescência inteira lutando contra as cenas e as palavras odiosas que apareciam sem minha permissão dentro do meu cérebro, corroendo minha vida. Descobri que tinha um nome bonito para isto: pensamentos intrusivos, olha só! Intrusos mesmo, isso é o que eles são.

Não faço ideia de onde vêm estes tais pensamentos intrusivos, talvez do coletivo, das ondas que perpassam por todos, talvez dos espíritos ou seres de outras dimensões, talvez dos computadores que nos controlam de algum lugar que pode ser este lugar mesmo, talvez de um deus ou deusa. Eu não queria saber de onde vinham. Eu queria apenas não ter que tolerá-los. E descobri que eu era sensitiva, o que quer dizer que sou sensível mesmo. Muito, muito, muito sensível! Não quer dizer que eu seja uma espécie de médium, mas, se ficar mais fácil entender assim, talvez seja um bom termo a ser usado. E isso foi o que me impulsionou a escrever. Além desta questão de me sentir muito doente e não estar preparada para morrer tão jovem, apesar de já ter desejado ardentemente isso no passado não muito distante. Eu não quero morrer agora. Era apenas isso que almejava falar com alguém. Eu quero viver mais um pouco. E daqui a dez anos eu quero pedir mais um pouco. E, passados mais dez anos, eu implorarei por mais um pouco de vida aqui na Terra. E nem mesmo sei por que quero continuar aqui neste caos do inferno.

Já tive medo do inferno e hoje tenho medo do céu. As pessoas ao meu redor pregam sobre céu, anjos, trombetas, cânticos, felicidade eterna, vida eterna, chatice, chatice, chatice, dormir. Não aguento este céu pregado por muitos. Eu queria muita música e muita arte e conhecer novos mundos, novas dimensões, viajar pelas estrelas e não ser queimada por elas, pisar nos planetas do sistema solar e ficar admirada por saber da existência de outros milhares de sistemas habitados por seres sencientes. Ai, como eu quero viajar pela vida assim! Mas ainda não quero morrer. Eu não quero compactuar com a morte agora. Preciso de algum tempo mais para escrever o que preciso escrever.

Há muito o que precisa ser trazido à Terra para complementar com o que muitos outros estão trazendo em todas as partes do globo terrestre. E é essa minha mania de grandeza. Não queria e não vou falar para ninguém, apenas para você. Eu tenho um senso de missão que fora vendido pelo mercado chulo dos tempos atuais, eu sei. Eu tenho consciência disso, contudo não consigo fugir do que sou neste momento. E poderei mudar daqui a alguns segundos. Mas, neste instante, eu acredito que preciso trazer algo para a Terra e não quero dizer que seja mais importante do que qualquer outro ser vivo. Não é e não sou. Eu acredito que todos temos algo de muito valioso a compartilhar e pode ser de diversas maneiras; a minha maneira é escrevendo e digo: ainda não escrevi tudo o que preciso escrever. Ainda não. E este é mais um temor estranho, o de voltar para o lugar de origem com a cabeça baixa e dizendo: não fiz, não fiz o que prometi, não fiz o que era minha missão fazer. Sabe, eu não quero comprometer ninguém nem sobrecarregar outras pessoas com as missões que deixei pelo caminho.

Nós sempre desejamos estar no controle de algo. Ou então colocamos deuses para estarem no controle, e nós ficamos no controle da nossa fé nesses deuses. Mas não é tão simples assim, principalmente para pessoas intensamente racionais. Esta sou eu!

Fico deveras perplexa com este poder ou desejo de poder que implantamos em nossas mentes. Uns dizem acreditar no criador de tudo, mas guardam suprimentos como quem quer tudo para si e não têm um pingo de fé na bondade do próprio deus que idolatram. É bem insano viver neste mundo. Sinto-me cercada de pessoas doentes e, provavelmente, estou doente também. Queria ter palavras otimistas e de alguma esperança, mas isso não é possível.

Alguém governa o mundo mesmo? Quem? Quero conhecer, quero saber quem são eles, os tais governadores deste mundo. Cansei de acreditar em teorias da conspiração, cansei de ver ciclos se repetindo na Terra e isso ser encarado por tantas gerações como prova do poder daqueles que nunca vimos, apenas ouvimos falar.

Estou absolutamente confusa, sem saber o que sou eu e o que são os outros. O que vive em mim e realmente é algo de que se possa ter certeza? Creio que nada. E não me sinto exatamente mal por isso. Sinto-me confortável por saber que os saberes que tenho são meras construções sociais, e não faço ideia se, no fundo de mim, há algo essencial, algo original, algo de uma tal fonte criadora. Estou cega e desejo ver. Estou surda e desejo ouvir. Sinto-me de mãos, pés e boca atados.

Quantas vezes pensei estar certa das minhas crenças, fossem elas quais fossem. Hoje não acredito em nada e posso até acreditar em tudo. Talvez vivenciemos, de fato, realidades paralelas. Talvez estejamos cada um em um micromundo e, embora vivenciemos a coletividade, isso não faz com que moremos num mesmo território real.

Alguém realmente domina o mundo? Alguém realmente está à frente de seitas cavernais que pretendem estabelecer nova ordem mundial neste planetinha aquoso? Já tive certeza de que havia comandantes plenamente cientes do seu próprio governo e poder. Hoje não sei… Por mais dinheiro que as pessoas tenham, elas desejam mesmo deixar o seu nome para a posteridade, desejam viver eternamente nas memórias dos povos, das nações. São crianças perdidas e que não receberam amor suficiente na infância. Será?

Nós acreditamos em teorias da conspiração, pois, assim, mesmo com medo dos dominadores, nós ficamos tranquilos com um pensamento: “Alguém sabe o que está fazendo… alguém sabe para onde está levando o barco. Alguém sabe… mesmo que contra todos!”. Nós nos deleitamos neste sentimento de terror e horror quanto ao olho que tudo vê!

Alguém está no controle deste caos aparente. Um grupo secreto, uma sociedade milenar, os alienígenas de outras dimensões, os anjos, os magos, os deuses, alguém, alguém… Como nos aliviamos com este pensamento de que há controle e ordem em toda a bagunça! E ainda pensamos haver propósito!

Ah, o propósito!

Estou me sentindo amordaçada. De fato, o uso da máscara também traz esta sensação estúpida de sufocamento. Não aguento mais estas teorias conspiratórias, nem as pessoas que querem nos manter aprisionadas mentalmente. Aqui eu posso confessar, sem medo de ser julgada, o quanto não queria continuar presa dentro de casa, nem dentro de mim. Sufoca os meus sentidos, ensurdece-me completamente. O pior de tudo: agora vejo o pior de mim e o pior das pessoas, as sombras e a devassidão destes passos incautos. Não sei como estou me aguentando de pé a cada dia. Um sufoco, um sacrifício, um sacrilégio. Estou a morrer aos poucos, muito mais rapidamente do que antes! O que será isso? O que eu deveria fazer?

Queria soluções rápidas e fáceis, um empreendedorismo, um emprego qualquer, um dinheiro na conta, um milagre, um salvador, um ser que explodisse a Terra. Pronto. Aqui eu posso dizer: na impossibilidade e na falta de coragem — e covardia — de tirar minha própria vida, eu desejo que a Terra exploda e leve com ela todos nós e nossos dejetos. Desculpa decepcionar o seu puro coração, mas eu sou esta pessoa.

Por outro lado, eu sou a pessoa que também quer o bem da Terra e da vida. Às vezes eu primo pelo bem-estar social e ambiental, tomo decisões baseadas na consciência e na decência. Eu quero fazer algo, fazer minha parte, não parecer inerte nem inescrupulosa. Sinto-me fatigada e sem ânimo para notar minha palidez e meu desmoronamento. Não quero que ninguém me entenda ou compreenda minhas dores, dissabores e emoções. Eu mesma quero me compreender. Apenas e só.

Se escrevo assim é porque desejo apenas isto: compreensão do meu próprio mundo interior para suportar o mundo que me cerca. Não me acho melhor que o mundo, mas acho que o mundo tinha condições de ser melhor do que eu. No entanto, invariavelmente, decepciono-me com o mundo. A culpada, se é que isso possa existir, sou eu mesma apenas. As expectativas são minhas, de ninguém mais. Eu sou a que não alcança a paz no travesseiro quando vou dormir à noite, e os pensamentos ainda continuam carcomendo meu juízo.

Eu acredito que escrever é minha única e desesperada salvação, por assim dizer. Sem escrever eu seria um nada fétido no meio do caminho. Não tenho feito diferença na vida de ninguém, nem mesmo na minha própria. Mas sinto que até poderia, se tentasse. Quem disse que tenho alguma mínima vontade de tentar? Não sei, não eu… Estou tentada a desistir mais uma vez.

Estas palavras soam-me insalubres agora. Estou desgovernada como um caminhão veloz que perdeu o controle do freio numa estrada lisa e íngreme. Descendo, descendo, descendo… até encontrar o melhor buraco para me jogar, deliciar-me com o gosto do sangue ao atravessar a garganta e sentir meus membros esfacelarem-se pelos quatro cantos do mundo. Que cena magnífica e terrível!

Sinto-me assim com estas palavras insanas, sem sentido e que não nos levarão a lugar algum, apenas a um buraco infindável. Sou cruel comigo como sou cruel com os outros. Não ouso pensar diferente de mim e de mais ninguém; quando estou com raiva de mim, fico também com raiva do mundo inteiro. Quando me amo, o mundo conhece a consideração e o amor que sinto por ele. Não consigo ser outra, ser diferente. Sou assim! Difícil ser diferente, mas tem gente que age como se fosse…

A morte é o assunto que toma conta dos meus neurônios neste instante. Mortes aos montes. E a minha tem me preocupado demais. Não sei em qual momento vou parar de pensar acerca dela. Estou exausta, com dor de cabeça, dor nos pés há mais de dois dias. As noites não revigoram minhas energias. Ao mesmo tempo que sinto tristeza, sinto-me triste. Ao mesmo tempo que sinto uma paralisia de alma, sinto-me cansada.

Acho que tem sido pesado o trabalho do outro lado… Ou estão me matando aos poucos. Todos os dias eu preciso lutar contra o desânimo e a descrença em mim mesma. Não gosto de autoajuda, pelo menos não da forma como eu gostaria de gostar e de acreditar. Assim como não acredito em propósito, embora nós, em maior ou menor grau, sejamos guiados pelo sentimento de servir a algo. Estou enveredada por mim mesma. Com medo, acuada, sem utilidade nem para servir.

A dor que me invade os tímpanos é a mesma dor que me invade os instintos, que é a mesma dor que dói em minha cabeça e me promove no interior um pavoroso medo de morrer de repente. E se eu não cumprir os desígnios a que fui confiada? Sim, repentinamente volto a acreditar em missão e em “O que estou fazendo aqui?”. Volto a perseguir letras intactas, de cadernos, de livros, de canções em desuso. Volto a sonhar em mudar um mundo que não precisa de mudança, muito menos de mim.

Embora no meu pequeno núcleo tenha pessoas que sentirão deveras minhas faltas. E, na real? É por causa delas que ainda não quero morrer. Apenas por elas. Não é a minha sensação de não ter cumprido porra nenhuma de missão. É a sensação de que serei causa de grande dor e sofrimento para aqueles pouquíssimos seres que dependem do meu olhar. Eu os vejo todos os dias. E gostaria de continuar vendo-os por alguns 20 anos, pelo menos. Mas não há garantias…

Meu corpo não está bem, eu sinto. Mas não sei do que se trata. Não paro de sentir dores, angústias físicas, incômodos… Não paro de sentir tristeza, raiva, comoção… pela minha própria partida precoce.

Estou tonta de andar em círculos e não perceber mudanças em mim. Estou tonta de não saber o que desejo. Estou exausta. Estou triste. Muito, muito triste. E é bom falar isso em voz alta, sem medo de ser julgada. A gente pode estar triste e, mesmo assim, ainda acreditar em felicidade. Eu sou dessas. Sou feliz com a trajetória que caminhei, com as conquistas que tive, pelo menos em termos de companhia de estrada. Mas isso não me impede de sentir tristezas profundas, eventualmente.

Só de desabafar isso por aqui já sinto-me menos pesada e menos dolorida. As dores da alma doem no corpo também. Isso é visível. Impressionante. Estou sem chão ainda, mas já desejo levantar. É uma sensação intermediária. Incontestável como eu posso sentir tanto e não sentir nada. Estou livre, livre para viver, até mesmo a morte.

Olhar para o espelho e não se reconhecer é muito triste. É devastador; se posso usar um adjetivo mais adequado, ele é este: devastador. Você se olha e não vê rastro de você. É como se fingisse, se vestisse uma roupa da qual se sente muito incomodada. É muito ruim. Devastador.

Mas acreditar em fantasias é ainda mais devastador. Eu decidi não acreditar em fantasias. Pode até fantasiar e criar fantasias, mas eximo-me de crer nelas. Posso criar algo e não crer neste algo. Parece contraditório, mas é apenas uma parte de mim. Estou bem e me aceito assim, embora esta aceitação não passe de pedaços de uma realidade ainda pouco concreta dentro da minha mente embaralhada como as cartas de uma cigana.

Fico profundamente comovida com a minha, a nossa afinal, capacidade de fantasiar. Não imaginar! Imaginar é criação. Fantasia, não! Fantasia e mentira são adiamento de planos; é quase, se assim posso falar sinceramente, um fingimento; quem imagina muito cria muito. Quem fantasia muito sofre muito, pois não cria nada.

Não se deixe levar pelas minhas definições levianas e permita-se discordar completamente de mim. Eu não sou esta aqui e agora por minha causa, e sim por sua causa.

Estou num mundo abafado por fantasias. Muitos fantasiam, poucos imaginam. Por isso mesmo, não vemos os aspectos criadores dilatando nossos sentidos. Tudo bem! Vago, superficial, sem nexo e sem sentido. É o que somos, em muitos momentos, às vezes mais do que desejávamos.

Não se sinta em erro ou em arrependimentos por estas razões que elenco. Não. E nem sinta frustração. Se serve de algum consolo, o normal é fantasiar. Nosso problema, em todos os âmbitos, se refere a isto: pouco imaginamos.

Pouco imaginamos coletivamente acerca de possibilidades de uma vida em comum, digna e cheia de bem-aventuranças para todos. Isso dificulta criarmos na vida real. Sem imaginar, como criar? A imaginação revela a criação, necessita da criação, é o próprio movimento criador em sua etapa inicial. A fantasia é delírio e talvez até demência. Torpor sem nenhuma força de criação.

O que imaginamos já vem com um impulso criador. O que fantasiamos é dispersado como um nada no caminho. Estou entre estes termos, mergulhando e afundando-me em apuros. Estou em apuros. Mas a minha imaginação já me salvou uma vez. Há chances de acontecer de novo!

Tenho a impressão de que a gente vive esperando a própria morte. Você não? Temo que a resposta seja definitivamente semelhante. É o que nós fazemos, conscientes ou não disso, é o que nós fazemos! Estamos sentados na vida esperando a própria morte e o próprio desatino do momento. Nenhum momento será como aquele momento e, por mais que não possamos supor o tal momento, nós sempre o sentimos muito perto, ao lado, acima, abaixo… às vezes arranha a superfície, às vezes engata a ré, às vezes cerca como num círculo, às vezes entende os escombros. Somos nada, eu penso e peno, mesmo diante das magnânimas construções, dos suntuosos escritos, das reverberações mil. Somos nada! Contudo, temos a deliciosa presunção de sermos tudo, tudo o que há de mais importante sobre a Terra, tudo o que existe entre o bem e o mal.

Sou apenas mais um ser humano no mundo. Mudo, engendrado, empacado. Apenas sou mais um ser humano no mundo. Não é perfeito? E divino!
Adoro ser nada além de mim, além de humano, humana, qualquer termo desses que nos colocamos para enfeitar os saberes das nossas bocas. Somos deveras divinos, seja lá qual for a nossa definição individual ou coletiva de divino.

Estou para começar a minha história e, até agora, não decidi qual final desejo ter. Mas, afinal, podemos determinar o final da nossa própria história? Um esqueleto decadente não pode mais interferir nas leis humanas… Ou pode? Sinto-me avassaladoramente empurrada de um penhasco, caindo num abismo quase infinito. Enquanto caio de lá, indo para não sei onde, fico conjecturando finais possíveis. Nenhum deles me parece bonito, mas todos são belos e magistrais.
Como posso considerar a não boniteza bela? Eu posso tudo enquanto caio em direção ao desconhecido; afinal, estou morrendo, lembra?

Não aceito migalhas dos meus próprios pensamentos. Posso aceitar migalhas dos outros e até de mim mesma, mas nunca aceitarei migalhas do meu próprio pensamento. É uma tortura perpétua, confesso. Dói o crânio e enverga a face. Não sou nada. Apenas um tiro no escuro, um pulo no asfalto, uma lâmpada apagada, um ser tremeluzente e cambaleante, bem longe, bem ao longe, bem ínfima e surreal.

Você não consegue me ver neste instante da queda. É muito rápido! A vida passa diante dos meus olhos, mas eu só enxergo a escuridão. A varanda está vazia, a comida saltita em gorduras fétidas, as mãos tremem endurecidas e a visão petrifica o que realmente é real.

Sinto-me nauseada, tonta, estranha. O calor da carne me abandona, o pulsar da aorta me esquece, o brio da vida ri-se de mim. Não estou podendo com estas bobagens insanas; contudo, é o único meio pelo qual posso ser salva… Ainda! E ainda hoje. Você pode ajudar-me?

A queda desfez-se. Voltei dois minutos antes da queda, olhei para trás com sangue nos olhos, literalmente. As lágrimas de fogo estilhaçavam minha visão, e eu pude sentir o perfume do capim que me rodeava. De quem era a mão profana que lançou-me ao abismo? De quem era tal despudor, tal ato impugnável? Eu não podia enxergar seus olhos; as lágrimas de fogo impediam-me ferozmente. Mas seu cheiro de capim penetrou minhas narinas. O que queres de mim? Por que me odeias assim?

Suas mãos encostaram em meus peitos, mas senti que não seria empurrada desta vez. Passava os dedos suavemente, percorrendo as montanhas já totalmente eriçadas pela fricção que seu corpo fazia no meu. Suas mãos eram quentes demais; no entanto, havia um conforto em seu toque. Serenamente notei seus dedos abrindo os botões da minha blusa e encontrando minha pele escorregadia em suor. Uma de suas grandes mãos encontrou plenamente meu seio exposto e hirsuto, acariciando-o com cada vez mais velocidade, vontade e vigor. Senti sua respiração ofegante perto do topo da montanha. Os lábios quentes e molhados agora estavam sugando-me cada vez mais ardentemente. Não pude mais resistir. Joguei-me no abismo.

Enquanto ele me desnudava completa e enfurecida, eu senti seu corpo nu e entumecido, quente como uma brasa, encostar-se em mim. Suas mãos encontraram os meus vales profundos e, cada vez que ele me penetrava com os dedos, a minha respiração parava e pairava no ar. O vulcão estava em chamas. Lavas escorriam de dentro dos poros excitados. Eu estava completamente preparada para receber o meu prêmio.

Ele entrou, firme, constante, inteiro, molhado e quente, muito quente. Uma de suas mãos segurava minha nuca e a outra percorria entre minhas audaciosas montanhas de cima e as minhas pungentes montanhas de baixo.

Ele começou com força. Entrava e saía. Entrava e saía. Entrava e saía. Que desespero!
Depois acalmou-se e deixou-me ainda mais ávida e desejosa de engoli-lo inteiro. Entrava lentamente e saía com movimentos lânguidos, deliciosamente calculados. Entrava com ternura e com exatidão. Sempre confiante. Até que seu desejo pareceu se igualar ao meu. Sua vontade de me desvendar inteira sobressaiu ao enredo, e os movimentos tornaram-se mais ritmados e avassaladores. Hã, hã, hã… Jorramos um no outro, fontes límpidas. Um abismo sem fim…

Que alucinante sensação do gozo. Você sentiu também?
Pior é que nada disso passou de um exercício imaginativo. Mas fez-me gozar como se eu estivesse na posse dele, completamente em mim.

Medo eu tenho das pessoas que parecem normais, certinhas, cheias de apetrechos do bem e que, se não bastasse, ainda vivem imbuídas de um espírito de missão: a de salvar os outros. Por que as pessoas têm tal fetiche? O que elas desejam mesmo é obter o galardão dos santos e santas. Existiram santas e santos realmente ou nos venderam ilusões pífias e sem escrúpulos, fazendo-nos crer que nós estamos aqui neste vilarejo chamado Terra por um objetivo maior? Tenho deveras minhas dúvidas. Preferi a fantasia de nada ser e tudo fazer, de nada ter e tudo ser, de nada crer e tudo ver… isso não tem hora para acabar.

Sinto-me animada após o prazer dos dentes cravados em minha anca. Os lábios abrasados por desejo real, animal e visceral comendo-me inteira quando não estou olhando. Sinto-me plena na nudez e na entrega completa, pois ali sou vazia e vulnerável. O abismo diante de mim é o que há… Alguém pode pisar o pé na ferida aberta ou estancá-la com suas mãos arrojadas. É uma questão de escolha. Além disso, não desejo nunca ser santa, pois seria, para mim, um desperdício de vida e de minutos. Eu quero é não ser indiferente ao outro, eu quero é me importar com o outro, eu quero é ser além de mim, o outro. Que isso não me faça ser chamada de santa. Quero humanizar a minha existência, mesmo que seja indecente usar termos pleonásticos dentro de uma obra tão séria. Estou exausta de mim, e isto é ótimo, pois só assim conseguirei desejar o outro. Eu não me basto em mim e é por isso que quero o outro, importo-me com o outro, não apenas porque o outro serve-me sua comida. Não. É porque, sem o outro, minha alma sucumbe.

Todos os dias vivo nauseada com a falsa promessa de ser melhor. Falsa porque, na verdade, não sou. Apenas desejo, mas desejar ser melhor não é suficiente para ser. Melhor do que o quê? Melhor do que quem? Eis um embate do qual eu prefiro a fuga constante e destemperada. Dizem que é o primeiro passo. Será? E será que desejo realmente me melhorar? Não tenho certeza sempre, embora a possua quase sempre. Quero ser além de mim e querer-me inteira. Não conheço quase nada de mim, e isto é incômodo. Cada vez que encontro alguém ou uma nova situação, vejo o quanto nada sei daquilo que digo ser eu, o eu exausto de si, que não se conhece plenamente. Uma estupidez, não?

Os outros nos querem num certo percentual. Nós mesmos nos queremos assim. Não desejamos conhecer muito além do arredor, do que podemos suportar conhecer sem a vontade estranha de entregarmos a vida ao caos. Sou insana às vezes, porém, neste instante, sinto a verdade pulsante dentro do meu peito: estou matando minha carne enquanto mato minha alma. Não é fácil dizer isto; na verdade, não é fácil escrever isto tão clara e lucidamente, tão sem máscaras, sem maquiagens e sem disfarces. Não sei se desejo me matar ou se desejo morrer, apenas sei que não consigo viver neste mundo, não da forma que sempre sonhei. Eu pensava que o futuro fosse possível; contudo, não há futuros possíveis, e sim o que existe. Lutamos por ideais e achamos pretensiosamente que estamos lutando por algo justo e que estamos fazendo algo deveras com algum sentido. Eu não vejo sentido na existência, mas enxergo beleza nesta confusão toda. Sou nada e sou tudo. Sou um átimo de segundo, de milésimos de segundo, quiçá menos que isso, no relógio do universo. Um piscar de olhos de um deus qualquer dura mais do que a vida do mais longevo ser humaninho que aqui brinca de ser deus (ou de acreditar num).

Eu disse que sou mais pessimista que qualquer outro adjetivo que queiram me ofertar com suas bondades e bajulações. Sou isto, porém não sou apenas isto. Sua primeira reação é julgar-me mal por este instante de sinceridade, o que quer dizer que, no fundo, no fundo, a verdade verdadeira é que você não suporta o íntegro, o real, o todo. Você quer apenas uma carcaça, seja para rir ou chorar, seja para se comparar de cima para baixo ou de baixo para cima. Nada disso existe, porra. Nada disso. Não adianta eu me matar. Não adianta eu morrer. Nada disso existe. E é isto que eu desejo que você entenda. Seja lá o que estiver vivendo neste momento, pronto, não passa de ilusão. É alegria? É tristeza? Não passa de ilusão. Pronto, já passou. Ou passará daqui a pouco. Surreal, não é?

Eu vou puxando o fio e descobrindo que ainda existe algo ali, ainda existem possibilidades, ainda existe vida e sobras e sombras dela. Pronto. Respiro e vejo que tenho a única e extraordinária chance de viver algo: este momento. Desde que fui concebida até o instante do meu último fôlego, eu serei uma parte existente no universo. Se depois desaparecerei ou se continuarei voltando ou se vagarei pela eternidade como alma penada ou qualquer teoria mirabolante que explique o pós-vida, não sei. É que isto tudo é tão grandioso, tão grandioso, que apenas consigo usar palavras que repitam e repitam e repitam sem decoro o quão grandioso é estar aqui. Não preciso de um motivo para achar isto. Não preciso de um Deus ou de uma missão especial. Não preciso de castigo ou de recompensas. Não preciso de nada que evoque a minha volatilidade e a minha presença a este momento ímpar de existir sobre o planeta Terra. Eu amo estar aqui. Se foi o acaso de explosões e tensões sucessivas ou se foi o projeto arquitetado de uma grande mente, pouco me importa nesta hora. Viver é um milagre quase inexplicável. Viver é um acontecimento, e não quero banalizar este evento extraordinário ocupando minha mente com o quão azarada eu sou ou com o quão incompetente eu sou. Eu não sou nada. Nem você. Tudo isso é ilusão. Um jogo em nossas mentes. Nossas? Não há um limite bem definido dentro de mim que possa ocupar o espaço entre a saúde e a loucura, mas sei que os conceitos podem bem me prender pelas pernas assanhadas e picar-me indolor. Quero dar um vivas às ilusões. Elas são o que temos. Contraditório? Pode até ser, mas é isso que sou: contradições!

Sou a desgraça de um ser fajuto. Não sei fazer nada bem de verdade, não tenho expertise em porra nenhuma e estou morrendo de vontade de falar milhares de palavrões, como você já pode perceber. Nem lágrimas tenho para enganar minha fajutice. Fico perplexa com o poder do não reconhecimento de mim. Queria muitas coisas, mas só faço promessas que não cumpro. É isso. Vivo um processo medíocre (ou diria, bem-sucedido) de autossabotagem (palavrinha de merda para expressar as merdas que fazemos para atrapalhar o nosso próprio caminho). Depois de tudo, o que mais me incomoda é ser pobre, não ter dinheiro, não poder viajar para onde quero, ser deprimida e fingir ser alegre. Isso me deixa perplexa mesmo. Fingir ser. Eu queria ser, mas eu apenas sei fingir ser. Não compreendo como a sorte e o destino operam em nossas vidas e ínfimas existências; contudo, estou aqui escrevendo para ninguém (e que fique guardado a sete chaves e mil pastas do computador!). Não quero que sintam pena nem raiva de mim. Quero mesmo é ficar em paz. Impossível, eu diria. Mas é a única coisa que desejo realizar neste momento.

Como eu pude fingir até hoje e dizer que eu não me importava? Sim! Eu me importava, e muito. Muito mesmo. Eu queria coisas que não tenho e talvez, muito provavelmente, nunca terei (é a merda da sorte). Cadê a sorte? Cadê meu movimento? Eu sinto que minhas entranhas estão se abrindo para a desilusão entrar de novo e corro sérios riscos de morrer à míngua, sem definição e sem êxito, um êxodo interno que não tem fim.

Os suspiros são para me convencer de que ainda tenho uma chance. Eu vivo ou iludo-me de que estou viva. Morri há muito tempo e continuo viva. E, vivendo, devo prestar atenção nas possibilidades. Estou tão triste que nem mesmo consigo chorar. É insano isto. A minha tristeza é pela falta de alegria em viver, não é pela vida em si. Sei, de raciocinar direitinho, que eu estou assim porque não sirvo aos outros. Servir é algo grandioso e estou me sentindo um nada por não servir a ninguém. As lamentações deveriam ficar para depois ou para nunca; porém, não disfarço a minha tristeza e angústia. Estou só. E é uma solidão de me saber dona das minhas próprias palavras e passos. Isto é tão assustador e terrível. Quero viver, quero viver outra vez. Alguém pode me ressuscitar? Por mais que eu grite, sinto que ninguém pode me escutar...

Estou sozinha. Só mesmo. Sei disso desde quase sempre, mas não queria me aborrecer com este assunto agora… é que a vida tem me surpreendido com a minha própria história sem tempo e sem espaço. Não me vejo perto de nada e de ninguém. Sinto-me numa realidade onde nada se encaixa comigo ou onde eu não me encaixo em nada. Triste, solitário, sem visão de mim ou da vida. Não é falta de perspectivas, e sim falta de vontade.

Tempos sombrios acercam-se a cada século surgente. Nada os pode impedir de transfigurarem-se no que devem ser. Apenas eles mesmos, espelhos da alma dos seus criadores. E quem cria os dias senão os seres humanos? Não é presunção nem suposição. Somos o cerne do tempo contido na ampulheta. A realidade é atemporal e quase etérea. O tempo crava sua materialidade por meio dos ponteiros de um relógio dentro de cada humano. Ninguém lhe escapa à perspicácia do saber e da ignorância plena. Ah, balaústre solitário, para que serves senão para espancar a vida? Talvez ainda não tenhamos compreendido o simples e profundo segredo da existência, talvez estejamos correndo em círculos intermináveis de uma vidência desamparada. A realidade sufoca a alma como se ela fosse lama escorrendo pelas narinas. A realidade mata as esperanças pungentes de um coração ferino. A realidade entorpece os sentidos mais apurados. Quem poderia controlar tão minuciosamente o segredo da existência? Quem? Quem? Quem?

O cheiro de alfazema entorpece meus sentidos mais baixos. Ele sobe desde as narinas e encontra meu cérebro. O que é meu aqui nesta terra que me envolve? Os pássaros que vejo são meus? As árvores que balançam são minhas? Por que as nuvens parecem querer me dizer algo que não consigo enxergar com os olhos normais do meu delicado rosto? Quem está aqui? Você deseja falar? Diga ao meu ouvido o que você quer que eu escreva, e eu escreverei. A interpretação, claro, dependerá de mim. Seja minucioso, se possível. Preciso sempre dos detalhes para fazer um melhor julgamento do todo.


Comece, por favor.

Há tempos desejo falar contigo sobre as maravilhas além do olhar superficial do ser humano comum. Não se preocupe com os pássaros ou com os outros animais. Não lamente sua falta de consciência. Eu lhe digo que eles possuem mais ciência do que muitos seres humanos. A ciência de um mundo para além do mundo. Não seja tola em acreditar que a vida não ama a vida. A vida sempre busca a vida. Sempre busca mais vida. Escute a voz do seu coração, programe seu projeto interno em consonância com o projeto da vida. Nada faltará para aqueles que confiam na vida. Perdoe-me se falo tanto a palavra vida, mas é a mais próxima que consigo das palavras que você possui em seu vocabulário para expressar o que desejo que você compreenda. Não se sinta desconfortável com a minha presença. Estou aqui para ajudar e quero que você se sinta à vontade para ouvir, escrever e entender no seu tempo. Quando falo em “seu tempo”, quero dizer o tempo da existência. Converse com seus pensamentos de modo que você os possa controlar, e não o contrário. Admiro — nós admiramos, na verdade — sua insistência em acreditar apenas no que seus olhos conseguem ver. E quem não enxerga nada? Pode viver? Se sua tempestade interior esmagar seus melhores sentimentos, o que mais restará em seu recipiente? Suas mágoas e confusões? Sua ira e suas decepções? Isso. Esteja ciente deste instante, lave os pratos como quem está realizando a mais nobre das tarefas. Descubra que você ganha sempre. Em cada estadia, em cada gesto, em cada palavra proferida. Pense na vida como um ciclo sem fim e, ao mesmo tempo, como infinitos pequenos ciclos sem fim. Você se sente confusa, posso sentir. Mas não ceda à tentação de buscar compreender estas palavras agora. Dê um tempo para si mesma e veja e escute para além dos seus humanos e terrenos sentidos. Valorize a sua estadia nesta existência, mas não ache que é a única. Você está conectada a muitas outras existências da sua própria essência que estão vivenciando outras experiências neste exato momento. Muitas vezes você sonha com elas. Umas parecem mais felizes, outras mais angustiantes, outras mais cheias de aventura. Você decide em qual jogo quer adentrar a cada abrir de olhos. E aqui você tem a oportunidade de ceder ao prazer completo ou de fazer o seu trabalho completo. Sim. Você tem um trabalho a fazer e precisamos que se disponha a fazê-lo sem mais desculpas para sua realização. Saiba que estamos ao seu lado e que nada pode interferir em projetos que tenham por fim o bem maior, o amor, a vida. Em suma, pense e responda, depois de pensar com calma, se é isto mesmo que você deseja: testar e testar os poderes que foram conferidos a todos que disseram sim ao propósito divinal. Você está amparada. Confie na vida. Confie em você. Confie no poder do universo. Foi um prazer revê-la disposta outra vez. Esperamos que não demore nosso próximo contato.

Eis o ponto de convergência. Se a cada pulsar dos seus sentidos você simplesmente nos sentisse… talvez fosse insuportável estar nesta existência. Há felicidade em receber seus versos e suas canções, pois os compomos ao seu lado. Vibra o gesto da impetuosa maneira de se viver na vida como se a vida fosse uma só e estática… Você sabe que estamos por perto e que nós somos você também. Sente ao abrir os olhos e ao ouvir o som das palavras não ditas. Você reage em inúmeras ocasiões; contudo, sempre que age, sua ação se direciona para o lado assertivo. Percebe?
Quantas vezes você se sentiu invadida pelo ar de pulmões alheios? Quantas vezes negou a própria existência do corpo que habita? Quantas vezes deixou de falar ou fazer pela insegurança do comportamento intuitivo… E quando você se deixa levar, frui apenas com o compasso e com os passos desta dança universal, tudo acontece como magia. Existe magia? Quem sabe… Mas existe realidade e existem realidades dentro da realidade. Compreende esta questão? Permita-se digeri-la e apreendê-la em seu ínterim. Você toca os acordes de um céu quase impenetrável, o céu que reside dentro dos emaranhados de pensamentos, das ligações incognoscíveis ao seu olhar apenas humano demais.
Permita-se ouvir o embalar das cordas vocais de quem ama estar aqui, de quem sabe-se vital para o funcionamento de uma estrutura muito maior e ainda inacessível aos seus sentidos inaptos a extraordinárias descobertas. Permita-se sentir o que é inescapável. Permita-se!

seja rápido
ou lentamente
mas seja…

perdi o fio da sanidade… e fim!


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