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Meio-fio

O seu trabalho foi descartado de cara. O título e a primeira frase do capítulo 1 estavam horrendos demais, sem possibilidade de salvação, pensou o juiz da banca examinadora. Parada no ponto de ônibus, a curiosa Fiu, apelido de Madalena, observava o movimento de ônibus, carros, motos, pessoas e cachorros pela Avenida Frei Benjamin. Seu olhar estava mais disponível aos cães, fã confessa dos animais, Fiu sempre revezava entre ansiedade e angústia ao ver o destino traçado para aqueles seres abandonados na rua. Sempre que conseguia, ia ao seu auxílio, fazia campanhas virtuais para arrecadar rações, deixava vasilhas com água perto de onde morava. Mas os cachorros pareciam se multiplicar por todos os cantos da cidade. Cássio trabalhava numa pequena editora no bairro Ibirapuera, morro da cidade interiorana, e acabara de descartar mais um original sem graça na lixeira do seu computador. A Exoticamente estava em período de seleção e o trabalho de encontrar trigo em meio a tanto joio desgasta...

Sobre o peso de guardar o que deseja crescer

Sobre o peso de guardar o que deseja crescer Tudo vai me apertando  Como uma saudade inflamando meus sentidos  A roupa não cabe O coração não cabe O alma não tem cabimento em si Esmaga Esfarela Esfacela  Desfaz o gosto agridoce do sangue sobre as costelas O diafragma congela  Sobre os pulmões dormentes  Sinto os alvéolos doentes  De tanto sentir falta dum sei lá o quê Que nunca, nunca, nunca vivi  De um tempo projetado à frente  Um futuro tão ausente  Perto demais para ser visto Longe demais para ser quisto  Eu sou cisto implantado bem no cerne  Crescendo desordenadamente  Corroendo minha própria mente  Mentindo o que sente por medo Sufocando  Sufocando Amando Amando Querendo tanto e Em tão bem guardado segredo... noi soul

Colapso temporal

Vocês acham que estão fazendo  A REVOLUÇÃO,  crianças Mas estão apenas  REpetindo os passos dos vossos pais Neste país tão degradado Segregado Foi consagrada a maldição  Da boca que come a boca Da serpente sem dente  Tão impune-mente  A mais nova ideia  De 100 anos atrás  Gritos em praças  Sonhos das valsas Pigmentos de heróis e heroínas  Da outrora Do acender da aurora Ou do acaso do ocaso Tão mórbido  Quanto breu Tão fora do eixo quanto  Um você e um eu Continuem, crianças Vossa saudosa revolução  É necessária a cada nova geração  Pensar que faz o novo De novo E de novo Pensar que faz renovo  E, aos trinta e poucos, descobrir  Que tudo não passou de simulacro ou dis-simulação Daquilo que um dia foi E do que poderia vir a ser  E de um passado im-perfeito Ou de um futuro do presente  Ou de um presente do futuro! Oxalá, desta vez, seja real! Como quisera este REnasCER...  noi soul Ou Celéstyan...

O verdadeiro encontro

A autorrevelação é a prova de amor que mais me mobiliza. Quando escuto os segredos mais sombrios de uma outra pessoa contados pela própria pessoa, sinto que a verdadeira conexão se estabelece. Quando tenho permissão para entregar meus próprios demônios nos braços de outro ser, sinto amor. É raro, muito raro, porque a maioria de nós fica na superfície, num algo de não sei o quê de temores e tremores ao pensar na confissão. A maior confissão a ser feita nunca foi sobre as palavras "Eu amo você"... eu as trocaria facilmente pelas palavras, talvez não tão impactantes nem tão diretas quanto almejamos mas de um poder destruidor-formador de mundos, como uma bola de demolição, como uma orquestra de uma só canção, como a realização do sublime sobre a Terra. Quais palavras? Aquelas que, em resumo, poderiam assim ser inscritas numa alma: "Eu confio em você. Eu confio tanto em você que entrego minha história aos seus ouvidos. Eu confio tanto em você  que me derramo inteiramente em s...

Até para a alegria

Eu tenho remédio até para a alegria  Ser alegre desmesuradamente também pode matar Descobri isso enquanto dançava em seus braços  E quase cheguei ao paraíso  Minhas mãos tocaram suas mãos  Meu remédio é sua companhia noi soul

Mátria

Eu preciso falar de coisas bobas  Mas ainda não há tempo Enquanto resolvo e revolvo a vida estas mãos precisam se erguer e se defender Não é bonito o gesto Mas é o que tenho para oferecer Sou mulher numa sociedade violentamente Misógina  Sou mulher numa praça de senhores sem lógica  Sou mulher na senda de uma cultura que me mata e mata a todo instante minha possibilidade de falar Apenas sobre coisas amenas...  Não! Não vão nos calar! E este grito nada bonito Soando como um estampido  Desregulado, desajustado  Dirão mesmo ser histeria  Esta estranha e enfadonha mania De eu viver sempre a me defender... Mas não foi ontem que mataram uma moça? Não foi ontem que mataram seus sonhos? Não foi ontem que mataram mais uma  E mais uma  E mais uma Porque, acham eles, são os seus donos?! Como posso falar de outra forma? Como posso ter polidez? Quando vivo cercada de medos Sempre à espera da minha vez... A minha vez...  Foi ontem,  Foi anteontem...

Promessa

Decidi não dar murro em ponta de faca Decidi não apontar dedos  Nem entrar em intrigas que não sejam necessárias Decidi reivindicar meu direito de existência  E reinventar o que me ensinaram ser minha essência  Eu vou mostrar a quê vim E eu vim para fazer acontecer Eu estou nesta Terra  Plantada com o amor dos deuses Não sou árvores ou raízes  Sou o próprio mar embevecido do céu  Eu sou porta escancarada Sou a fronteira da beirada  Sou o doce escândalo da alvorada Eu sou vida E sou nada! É por isso que nem pensarei duas vezes  Ao lançar minha alma leve  Este instante, de tão breve, É o que resta ao esplendor Então, sonharei e destrancarei  Até os cadeados mais enferrujados E quem andar ao meu lado  Será para brilhar também  O fulgor do meu sol  É luz que desperta amor  Se isso não é a própria epifania  Não sei mais onde estou! Decidi levantar poeira Levantar mulheres  Acender lareiras A minha luminária não é...