Meio-fio

O seu trabalho foi descartado de cara. O título e a primeira frase do capítulo 1 estavam horrendos demais, sem possibilidade de salvação, pensou o juiz da banca examinadora.

Parada no ponto de ônibus, a curiosa Fiu, apelido de Madalena, observava o movimento de ônibus, carros, motos, pessoas e cachorros pela Avenida Frei Benjamin. Seu olhar estava mais disponível aos cães, fã confessa dos animais, Fiu sempre revezava entre ansiedade e angústia ao ver o destino traçado para aqueles seres abandonados na rua. Sempre que conseguia, ia ao seu auxílio, fazia campanhas virtuais para arrecadar rações, deixava vasilhas com água perto de onde morava. Mas os cachorros pareciam se multiplicar por todos os cantos da cidade.

Cássio trabalhava numa pequena editora no bairro Ibirapuera, morro da cidade interiorana, e acabara de descartar mais um original sem graça na lixeira do seu computador. A Exoticamente estava em período de seleção e o trabalho de encontrar trigo em meio a tanto joio desgastava sobremaneira a paciência e a natureza exigente do editor. 

Fiu morava no Bairro Brasil, perto daquele ponto de ônibus onde sentava agora. Estava ali apenas como uma expectadora curiosa, tentando pensar em histórias para colocar em seu livro. O processo criativo da sua escrita envolvia longos períodos de observação sempre a partir do mesmo ponto de vista: o ponto de ônibus defronte ao posto de saúde. Ela já havia imaginado dezenas de histórias para cada pessoa, animal ou objeto que tenham atravessado sua visão nos últimos 2 anos.

Olhando o relógio de pulso, pois ainda conservava este hábito analógico, Cássio se assustou com o passar das horas e levantou-se abruptamente, deixando o copo de água cair em seu teclado, correu a enxugar como pôde, manga da camisa, flanela, casaco. Não tinha tempo para muito mais do que isso. Hoje seu compromisso envolvia buscar uma famosa escritora baiana no aeroporto. No dia seguinte, ela palestraria na cidade conquistense a convite da editora de Cássio. Ingressos esgotados. Todos os fãs de literatura contemporânea queriam vê-la e ouvi-la e, principalmente, saber o segredo do seu sucesso.

Eram quase 13 horas, Fiu notou com certo grau de desapontamento. Precisava voltar à casa, fazer seu macarrão instantâneo, tomar uma chuveirada gelada e ir trabalhar no shopping. Seu turno começava às 15h e ia até 23h30. Ótimo laboratório para suas observações atentas acerca da natureza humana. Atendia numa rede famosa de fast-food, era uma máquina de sacudir batatas fritas e servir clientes ansiosos por satisfação. Já fora eleita funcionária do mês por duas vezes em menos de 1 ano de trabalho na empresa. Ver sua foto sorridente na parede da loja trazia um ar de importância ao seu trabalho. Ela até escrevera sobre esta frivolidade capitalista em certa ocasião. Ria das suas vaidades e das tolices dos outros. Levantou-se do banco em que estava fazia uma hora e já sabia qual história contaria em seu próximo conto.

Cássio precisava descer toda a extensa Avenida Frei Benjamin se quisesse chegar ao outro lado da cidade mais rápido. O problema é que neste horário a avenida era ainda menos atrativa. Tinha horror a este tumulto de gente, carros, motos, bicicletas. Xingava a prefeitura e quem quer que fosse responsável pelo trânsito na cidade, porque era inadmissível que um lugar do porte de Vitória da Conquista tivesse uma avenida tão importante daquela jogada às traças. O perigo era constante, acidentes noticiados diariamente não pareciam comover, todos correndo o tempo inteiro e, como se para aumentar o caos, cachorros largados pelas ruas perpendiculares faziam o terror por toda a extensão daquela bagunça. Voltou a olhar seu relógio enquanto dirigia pela segunda metade da avenida quando aconteceu. 

Era uma faixa de pedestres, Fiu tinha certeza. Já havia atravessado mil vezes por ela. Sua confiança na direção defensiva dos motoristas era indissolúvel e fora reforçada por muitas e muitas ocasiões positivas anteriores. Hoje, porém,  algo pareceu descontrolar-se na linha do tempo. O carro que vinha da esquerda parou, contudo o carro cinza da direita continuava seu trajeto  sem sinais de que diminuiria sua velocidade e continuou…  e Fiu, sem compreender qual melhor decisão a se tomar – voltar ou prosseguir – acabou paralisada pela surpresa daquele instante. O motorista voltava sua visão naquele exato momento, Fiu olhou em seus olhos, percebeu os lampejos de terror que percorreram ambos, motorista e pedestre numa dança descompassada, ouviu o barulho do freio como um aviso longínquo de que aquilo estava realmente acontecendo. Não era mais uma personagem de seus contos. Era a realidade nua, crua e dolorosa em seu corpo estendido no asfalto quente. Sorriu. Parecia um sonho e tudo foi ficando distante, vozes que praguejavam, cachorros que latiam, as dores, o livro que ela enviara para a editora da cidade… contariam sua história ou a história que ela inventou para si?

O céu tem estrelas de dia… 

Escuridão.


noi soul

No livro Pacto com o silêncio - Kindle

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