Mátria
Eu preciso falar de coisas bobas
Mas ainda não há tempo
Enquanto resolvo e revolvo a vida
estas mãos precisam se erguer e se defender
Não é bonito o gesto
Mas é o que tenho para oferecer
Sou mulher numa sociedade violentamente
Misógina
Sou mulher numa praça de senhores sem lógica
Sou mulher na senda de uma cultura que me mata e mata a todo instante minha possibilidade de falar
Apenas sobre coisas amenas...
Não!
Não vão nos calar!
E este grito nada bonito
Soando como um estampido
Desregulado, desajustado
Dirão mesmo ser histeria
Esta estranha e enfadonha mania
De eu viver sempre a me defender...
Mas não foi ontem que mataram uma moça?
Não foi ontem que mataram seus sonhos?
Não foi ontem que mataram mais uma
E mais uma
E mais uma
Porque, acham eles, são os seus donos?!
Como posso falar de outra forma?
Como posso ter polidez?
Quando vivo cercada de medos
Sempre à espera da minha vez...
A minha vez...
Foi ontem,
Foi anteontem,
Foi o antes do antes de ontem
Está sendo agora
E, infelizmente, ainda será amanhã
A cada instante que uma mulher é ferida
A cada instante que uma mulher é assediada
A cada instante que uma mulher é esfaqueada
Eu morro também!
E o que posso dizer?
O que posso fazer
Senão, mais uma vez, me defender...
Mas minha defesa será GRITO
e será também SUSSURRO
e será o que eu quiser
porque descobri, com elas,
Descobri que juntas
Descobri que tantas
Somos a nossa própria mátria
MULHER!
noi soul
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