Cotidiano incomum
era sábado, dia sem muitas pretensões a não ser dar conta de uma parte da faxina da casa e de ir a um Sarau Litero-musical para o qual eu havia sido convidada no dia anterior. recebi mensagem no grupo das amigas e a informação que uma delas colocou era triste... a mãe dela havia falecido. foi o suficiente para modificar toda a atmosfera do dia, da rotina programada e planejada, do tempo que parecia suficiente para dar conta de tudo e agora simplesmente virava estilhaços junto com as memórias-fragmentos que aquela mensagem me despertou. eu até busquei seguir meu cronograma, coloquei fone de ouvido, fui limpar a varanda e depois dar um tapa no único banheiro que tem aqui em casa. chorei, fiquei com raiva, chorei, fiquei triste, chorei, fiquei revoltada, chorei... por que as pessoas morrem, por que morremos? por que tememos tanto a morte se sabemos que ela anda sempre à espreita? por que não temos respostas legítimas e palpáveis para nossos questionamentos existenciais? chorei até me acalmar e mudar a minha frequência interna porque, antes de ir ao velório, eu precisava cumprir com o compromisso assumido de ir ao Sarau. a arte é deveras singular, resposta para muitas das minhas indagações e penso, inclusive, que, caso não exista nada além deste caos material em que vivemos, ao menos vale a pena a experiência por causa dela, da Arte. e também por causa do Amor. pois bem, até consegui sair revitalizada do espaço artístico, mas, como é de costume nestas ocasiões, demorei para pegar no sono e fui correndo assistir a um filme que me fizesse dormir mais rápido. até consegui dormir por quase duas horas. antes das duas da manhã, porém, acordei com a impressão de que um vulto passava na sala e, em sobressalto, acordei com dor "no peito". a primeira coisa que uma mente ansiosa pensa é "Estou morrendo!". e este único pensamento é acionador das maiores peripécias corporais. o coração dispara, a pressão arterial despenca, o sangue foge do rosto, o mundo gira, o corpo dói. e, neste momento, apenas um milagre ou um banho quente ou o milagre do banho quente (fervendo mesmo) pode me trazer de volta. tento fazer tudo com discrição para não acordar as demais pessoas da casa, pego toalha no varal, coloco uma água pra esquentar para fazer um chá de camomila, vou ao banheiro, nem ouso olhar a palidez que sei estar instalada em minha pele porque isso me faria desmaiar... o chuveiro me acolhe e colhe meu pranto contido em pensamentos céleres "E se eu estiver infartando? E se eu morrer agora? E se eu não conseguir chamar Diogo pra me ajudar? E se Nicolas não conseguir viver sem a mãe? E se eu não tivesse essa doença chamada ansiedade generalizada, quem eu seria? E se isso for tudo fruto da minha imaginação? E que imaginação poderosa a minha! Eu consigo imaginar a doença no meu corpo e sinto como se a estivesse vivenciando... E se eu não estiver morrendo? Preciso aguentar até amanhã para dar um abraço em minha amiga que acabou de perder a mãe. Preciso ser forte para dar suporte a ela. Preciso dormir para ter energia amanhã. Quero fugir de mim, como faço?", tudo isso em poucos instantes debaixo da água fervente que banha meu corpo. "RESPIRE, NOIANE! RESPIRE BEEEM FUNDO! SEU CORAÇÃO ESTÁ TRABALHANDO DIREITINHO... RESPIRE E SINTA COMO SEU CORPO REAGE!". queria dizer que a calma chegou em 10 minutos, mas ainda demorou 2 horas para eu pegar no sono. Eram quatro e pouco. O despertador tocou às seis... dor de cabeça dos infernos, dipirona em gotas porque não sei engolir comprimidos, lembranças de quando minha mãe infartou 11 anos atrás e eu não consegui ir ao enterro por ter passado mal... Lembro-me da minha primeira grande crise de ansiedade quando o caixão com o corpo dela foi retirado da sala, deram-me um remédio controlado que meu tio usava, colocaram-me na cama - a mesma cama em que mamãe deu seu último suspiro, eu achei que estava morrendo ali e até quis morrer, mas vi os olhos do meu amado Diogo e pensei: "Eu quero viver"... entendi que as crises de ansiedade estão diretamente ligadas ao que houve com minha mãe e, por um instante, pensei em enviar mensagem para minha amiga e dizer que não daria conta de estar ao lado dela nesse momento difícil porque a circunstância me dava gatilhos, todavia me forcei a levantar o corpo, a evocar forças de onde eu nem imaginava. a minha dor ainda é grande, mas há momentos em que devemos colocar nossas dores no bolso e ir acolher uma amiga querida, dar um suporte daqueles que só as verdadeiras amizades são capazes de oferecer... coloquei minhas dores no bolso. neste instante, há dores maiores que a minha e eu posso oferecer meu abraço e minha companhia.
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noi soul
Maio lacrimoso
17 de 2026
P.S. e eu nem comecei a fazer as reflexões sobre a morte, que era o objetivo inicial deste texto!
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